Roberto estava visivelmente desconfortável na sala de espera, mas o filho, Lucas, de 11 anos, parecia ainda mais inquieto. O motivo da consulta não era uma gripe ou uma lesão no futebol, mas algo que Roberto vinha adiando conversar: a dificuldade de Lucas em realizar a higiene completa do pênis devido à pele estreita, a famosa fimose. Essa cena é um clássico nos consultórios de urologia e ilustra um ponto cego na saúde masculina que começa cedo: a falta de diálogo sobre a anatomia e os cuidados básicos que evitam problemas sérios no futuro. A fimose nada mais é do que a incapacidade de retrair o prepúcio — a pele que recobre a glande (a “cabeça” do pênis). Em bebês, isso é fisiológico e esperado; a pele costuma se soltar naturalmente com o tempo.
O problema surge quando essa abertura permanece estreita demais na infância tardia ou na adolescência, ou quando surgem cicatrizes que impedem o movimento. No caso de Lucas, o sinal de alerta veio através da ardência ao urinar e de um tom avermelhado na ponta do pênis. O que muitos pais não percebem é que a fimose e a higiene íntima estão intrinsecamente ligadas. Quando a pele não retrai, cria-se um ambiente úmido, escuro e quente, ideal para a proliferação de bactérias e fungos. Ali, acumula-se o esmegma, aquela substância esbranquiçada composta por células mortas e óleos naturais da pele.
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Se não for removido diariamente com água e sabão neutro, o esmegma pode causar a balanopostite, uma inflamação que gera dor, inchaço e, em casos recorrentes, pode até fechar ainda mais o canal da uretra. Durante o exame, expliquei ao Roberto que nem toda fimose termina em cirurgia. O uso de pomadas específicas à base de corticoides, aliado a exercícios de retração orientados, costuma resolver boa parte dos casos na infância. No entanto, quando há infecções de repetição ou quando a pele apresenta anéis de fibrose (cicatrizes endurecidas), a postectomia — a cirurgia de circuncisão — torna-se a via mais segura para garantir a saúde urinária e sexual do jovem.