O açúcar é o único vilão? Desmistificando o processo de formação da cárie dentária

“Doutor, eu quase não como doce. Como isso apareceu aqui?” Essa é a frase que mais ouço quando mostro uma pequena mancha escura ou uma cavidade no segundo molar de um paciente. Recentemente, atendi o Marcos, um homem de 40 anos, maratonista, extremamente disciplinado com a dieta e que orgulhosamente me contou que cortou o açúcar refinado do café há cinco anos. Para ele, o diagnóstico de uma cárie era uma injustiça biológica. A verdade é que o açúcar ganhou o papel de vilão solitário nessa história, mas ele é apenas o cúmplice mais barulhento de um processo muito mais complexo e silencioso. A química por trás do lanche “saudável” O que expliquei para o Marcos — e que muitas vezes passa despercebido — é que a boca é um ecossistema em constante batalha química. Sempre que comemos, o pH da nossa boca cai, tornando o ambiente ácido. Nossas bactérias nativas, especialmente a Streptococcus mutans, não são seletivas apenas com o açúcar de mesa (sacarose). Elas adoram qualquer carboidrato fermentável. Aquele biscoito de água e sal, o pãozinho integral ou até a fruta seca que o Marcos comia entre os treinos grudam nos sulcos dos dentes. As bactérias metabolizam esses resíduos e liberam ácido lático. Esse ácido é o que realmente dissolve o esmalte dentário, iniciando a desmineralização. Se você belisca o dia todo, sua boca nunca recupera o pH equilibrado. O dente vive sob um ataque ácido contínuo. O fator “frequência” versus “quantidade” Existe um conceito na odontologia preventiva que choca muita gente: do ponto de vista estritamente dentário, é melhor comer uma caixa de bombons de uma vez só do que comer um único bombom a cada hora. Quando você come tudo de uma vez, o “insulto” ácido acontece uma única vez e a saliva — nossa maior aliada — entra em ação para neutralizar o ambiente e repor minerais. Se você come um doce (ou um amido) a cada hora, a saliva não tem tempo de agir. O dente fica em um estado de desmineralização permanente.

No caso do Marcos, eram os pequenos lanches pré-treino, repetidos várias vezes ao dia, que estavam vencendo a resistência do seu esmalte. O papel do biofilme e a higiene estratégica Muitos pacientes acreditam que a escovação serve apenas para tirar o “grosso” da comida. Na verdade, o objetivo principal é desorganizar o biofilme (a placa bacteriana). Imagine o biofilme como uma cidade microscópica organizada, onde as bactérias se protegem e se multiplicam. O uso do fio dental: É o único capaz de destruir as “fundações” dessa cidade nas áreas onde a escova não alcança. Sem ele, a cárie se desenvolve entre os dentes, onde muitas vezes só é detectada por exames radiográficos. A técnica de escovação: Não é força, é contato e tempo. Escovar rápido demais deixa nichos de bactérias prontos para fermentar o próximo alimento. Flúor: Ele não é apenas para crianças. O flúor atua como um “escudo” químico, ajudando a remineralizar o esmalte que o ácido começou a desgastar.

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